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De bicicleta, pela Castello Branco, ganhei o Igor

Rodovia Castello Branco. Outubro de 2011.

Rodovia Castello Branco. Outubro de 2011. Foto: Gilberto Kyono.

Eu conheci o Igor Gabia quando ele tinha ainda 16, quase 17 anos. Isso foi há cerca de 2 anos. Um pouco depois disso, em um dia qualquer de Outubro de 2011, o Gilberto Kyono me chamou para fazer um circuito de um dia, saindo de São Paulo pela Rodovia Castello Branco, em direção a Itu, de lá em direção à Rodovia dos Bandeirantes e por ela de volta a São Paulo, o que daria mais de 200 KMs.

Estávamos eu, o Gilberto, o Igor, a Natashe e mais dois conhecidos do Gilberto. Saímos de São Paulo às 7 horas da manhã, com a previsão de voltarmos até a noite.  Seguimos pela Vila Leopoldina, até a ponte mais próxima à entrada da Castello, para evitarmos qualquer trecho da Marginal Tietê e já começarmos onde o acostamento é mais largo. Tudo foi tranquilo na saída de São Paulo, apesar das entradas e saídas de veículos.

Com paradas para descansar e tomar água, fomos seguindo e vencendo a distância, até o KM 53. A câmara de ar do pneu do Igor furou e lá fui eu ajudar. Isso se tornaria a principal “marca” da minha amizade com ele. Neste dia até que não foram muitos furos, mas em um Audax, meses mais tarde, eu o ajudaria a trocar câmaras 5 vezes em pouco quilômetros, até que pedimos um pneu emprestado para o Richard Dunner, da organização da prova. Descobrimos então que era o próprio pneu que estava furando câmara, mas com isso nós dois seguimos sem mais câmaras reserva até o final, pois já tinham ido as 3 dele e as 2 minhas.

Depois da troca do KM 53 continuamos, almoçamos e quando escurecia estávamos quase em Jundiaí. Os conhecidos do Gilberto sugeriram que tomássemos, daquele ponto, o trem de volta a São Paulo. Já tínhamos pedalado mais de 150 KMs. Eu falei que não queria parar e o Igor logo se voluntariou a continuar comigo. Seria a primeira vez que eu iria passar dos 200 KMs e não queria perder a chance. Chegamos quase às 10 horas da noite, depois de outros 60 KMs, cansados, mas como já tínhamos pedalado mais de 230, ele sugeriu complicar e fazer a subida até a Paulista pela Av. Pacaembu. Fizemos, e um menino que ainda estava o ensino médio tinha me acompanhado na distância mais longa da minha vida pedalando.

Essa é só uma das lembranças boas. Tem muito mais. Tem muitos outros furos em que ele me ajudou. Tem muito tempo andando juntos nos Audax. Tem as vezes no final de tarde que eu estava voltando do trabalho e ele aparecia, do nada, pedalando ao meu lado na Paulista. E parece que esse menino é uma unanimidade. Uns tantos outros textos nas redes sociais, um post do Odir Züge e outro da Michele Mamede mostram um companheiro, de sorriso fácil e brincalhão, que todo mundo gostava.

No quilômetro 16 da mesma Castello Branco que pedalamos, o Igor foi embora. Sábado, 24 de Agosto de 2013, aos 18 anos, ele foi atropelado por um caminhão, ao cair na pista tentando fugir de dois assaltantes. Vou sentir saudades deste menino, não com a sensação de tê-lo perdido, mas de ter ganhado algum tempo ao seu lado.

Audax Holambra. Foto: Alexandre Tamashiro (China).

Audax Holambra. Foto: Alexandre Tamashiro (China).

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De bicicleta, perdi uma amiga

Não sei por onde começar este post. É estranho quando a morte chega tão perto de você. A Juliana era minha amiga e fazia, de bicicleta, parte do trajeto que eu faço todos os dias pela Av. Paulista. Ela também tinha sonhos, mesmo depois de um coração machucado. Tinha um caixote de frutas cheio destes sonhos no bagageiro da bicicleta e outros tantos saltando da sua fala rápida. Ela participava da Bicicletada e frequentava as festas do Saloon. Um dia ela me convidou para um show do Karnak, no Sesc Pompéia, para ouvir as bobagens do André Abujamra. Ela pagou a entrada. Lá encontramos o Marcello Pimentel, o Palmas (ou seria o Alexandre Ribeiro?) e o Fred França. Depois do show eu, ela e o Fred bebemos pinga e cerveja no BH até altas horas. Foi um noite gostosa. Daquelas que vão ficar para sempre na memória.

— o —

Juliana Ingrid Dias – 15/01/2012
  • Oi Re, tudo bem com você?
    Hoje passei em frente à sua casa quando estava indo trabalhar! Fiquei imaginando se estava lá!!!
    Beijo.

Rene Jose Rodrigues Fernandes – 15/01/2012
  • Oi, Ju! Estou bem, fora meio chateado com umas coisa do trabalho que não deram certo ainda. E contigo? Tudo bom? Faz tempo! Manda notícias. Nunca mais ví você nem online! No final da manhã e de tarde eu não estava. Tinha ido pedalar um pouco, treinando para fazer o Desafio semana que vem. Um beijo!

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Karnak  – Comendo Uva na Chuva

Cada água que cai do meu rosto
É uma chuva que ainda não parou
Cada água que cai lá de cima
É a lágrima de alguém que brigou
Será que um dia a gente vai parar de briga 
Será que um dia a gente vai parar de brigar

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P.S.: Tudo o que eu poderia dizer sobre respeito no trânsito, CTB etc já disse no post sobre o Sr. Antonio Bertolucci, vou continuar dizendo nas redes sociais e na mídia e vou usar para reivindicar mais segurança para o ciclista junto ao poder público. Este post é só para sentir saudades da Ju.

@renejrfernandes

De bicicleta pelo começo

Nasci em uma cidade de casas. Casas pequenas, simples, que se alternavam em cores e formas quando vistas pela janela do banco de trás do carro da minha mãe. Eram casas pequenas, que se tornavam quase imperceptíveis se estávamos atrasados. Os carros, no entanto, eram grandes. Ainda mais quando vistos da perspectiva de uma pequena passageira: painel, direção, câmbio, bancos, espelhos. Eram tão grandes que determinavam a hierarquia do poder entre eu e meus irmãos, por isso eram constantes as disputas para ver quem iria no banco da frente ou ainda, quem seria capaz de manipular a direção do carro desligado, quando brincávamos de motorista. Os carros, como em toda família de classe média daquela época, eram símbolo de ascensão econômica. Por isso foram todos comemorados, diante da nossa condição de sobreviventes à inflação, recessões, planos econômicos e crises. Do primeiro Fusca, da Parati histórica até o primeiro carro com direção hidráulica, lembro-me de ter sido muito feliz. Essa felicidade movida em motores à explosão.

Cresci numa cidade de prédios. Prédios grandes, às vezes suntuosos e geralmente altos. Altos a ponto de ultrapassarem a visão limitada da janela do ônibus. Altos que chegam às vezes a tampar o sol. Mas isso era assim quando cheguei por aqui, há mais ou menos dez anos.

Hoje moro em uma cidade de carros. Carros que se acumulam cada vez mais em vias estreitas. Carros que buzinam em uma orquestra agonizante a música da impaciência. Impaciência que não é só minha, mas de boa parte dos motoristas ao lado. Alguns suspiros, espreguiçadas, cigarros sorvidos, celulares consumidos e motos, milhares de motos, lançando um agudo, estridente, no meio da via, capaz de irritar o mais calmo dos seres humanos.

Quando cheguei por aqui me encantei com os prédios, como todo estrangeiro se encanta com a paisagem alheia. Mas me desencantei, em proporções de um divórcio, quando o trânsito efetivamente começou a tornar os minutos do meu relógio mais curtos. Foi assim que eu comecei a odiar São Paulo.

Mas não me divorciei e na vida real também não casei. Como toda história óbvia, acabei comprando uma bicicleta: desmontável e absolutamente linda.

Começamos em trajetos tímidos, pelas vias sossegadas do bairro, que restavam aos finais de semana. Aos poucos a bike ganhou luzinhas, revestimentos para os pneus e amigos. Amigos outros que fizeram os trajetos curtos se tornarem mais longos e mais bonitos.

Um dia, depois do que já nos conhecíamos e que já havia lhe apresentado minha paixão em duas rodas, ele surgiu com um cabelo e uma barba enormes e uma speedy velha, quase enferrujada, que havia trazido do sítio do avô. Uma Caloi 10 pela qual ele se orgulhou muito e se tornou minha maior e mais apreciável parceria. Depois da amizade e da Caloi veio a máquina fotográfica e depois a minha vontade de escrever e tudo isso virou esse blog, de bicicleta.

De bicicleta vamos entendendo mais sobre as nossas distâncias. As nossas e as do mundo. Eu sigo escrevendo e o Renê segue fotografando. Com nossas duas magrelas e outras que se juntam a nós, nos permitimos experimentar São Paulo com outros cheiros, outras cores e outros sons. Colocamos a nossa irritação habitual do trânsito nos pedais e estamos por aí, registrando tudo.

Hoje vivemos numa cidade de bicicleta. Esse blog é sobre isso.