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De bicicleta, para o trabalho

Todos os dias, por volta das nove horas da manhã, eu assisto à mesma cena impaciente: as luzes dos freios se acendem e apagam, enquanto os carros se deslocam por milímetros. Por vezes, uma buzina ou outra confessa a típica irritação. Eu, nessas horas, costumo apenas aumentar o som do rádio e assistir, de forma resignada, à mesma paisagem de luzes vermelhas, que se mostra diante do vidro do meu carro.

Todos os dias essa cena acontece, no cruzamento da Avenida Chedid Jafet com a Avenida Presidente Juscelino Kubitscheck. Por incrível que pareça, estou há menos de 100 metros do meu trabalho, no entanto, demoro de 15 a 20 minutos para alcançá-lo. Tenho um carro 1.0, que não atinge grandes velocidades, mas mesmo para os padrões do meu possante, não há como não achar que essa situação diária é um enorme contrassenso.

Para piorar,  olho diante das grades do Parque do Povo e vejo diversas bicicletas transitando livres por ele. Por vezes, algumas passam ágeis entre os carros sobre o cruzamento engarrafado, deixando meus olhos bem aflitos e meus pensamentos inquietos: afinal, por que não vir trabalhar de bicicleta?

E como todo ser trabalhador que se preze, as respostas mais contundentes já se passaram pela minha cabeça: (i) porque é perigoso; (ii) porque é loucura; (iii) porque você vai chegar suado e fedido; (iv) porque o trânsito de São Paulo não comporta ciclistas nos dias de semana; (v) porque é um risco desnecessário.

Mas foi no meio de todas essas questões que o Renê me apresentou o Ezra. Ezra é o que qualquer um definiria como um gringo maluco: um americano, nascido em Austin, que passou dois anos viajando de bicicleta para chegar ao Brasil. Ezra vive de bicicleta pelas ruas de São Paulo e não se vê longe do seu entusiástico meio de transporte. Ele chega rápido e bem animado em qualquer lugar da cidade e, por ser professor de inglês e de matemática, entre uma aula e outra ele segue rodando por aí.

Pedi ao Ezra para me acompanhar com a bike para chegar sem carro ao trabalho no Dia Mundial Sem Carro. Ele se propôs a me dar algumas dicas sobre como andar de bicicleta em dias de semana e chegar viva à labuta diária. Marcamos então às 7:30 da manhã na  Avenida Sumaré e, mesmo com o tráfego não muito intenso, pude vivenciar um pouco do que é transitar pela cidade com a bike em um dia comum. Escolhi um caminho sem tantos carros, o que não me impediu de passar por vias mais movimentadas. O que pude notar, de certa forma, é que apesar da disputa por espaço, os carros, ônibus e taxis têm se mostrado mais dispostos a conviver com bicicletas. Talvez isso seja uma pressão imposta pelo número de ciclistas que vem crescendo na cidade de São Paulo. Talvez isso seja uma impressão pessoal de alguém que, em razão do medo, pintava o trânsito e os motoristas muito mais feios do que eles realmente são.

Fato ou não. Demorei exatos 40 minutos para chegar ao meu trabalho. No meio do caminho, me diverti bastante com as dicas do Ezra, ditas com um sotaque carregado. Sobre os meus questionamentos iniciais, pude comprovar que são todos verdadeiros, no entanto, o único fator que realmente vira um problema quando o assunto é ir trabalhar de bicicleta chama-se: chuveiro. Dependendo do seu nível de transpiração e do seu preparo físico, você vai fatalmente chegar suado para trabalhar e isso pode não ser tão legal.

Do resto, ir para o trabalho de bicicleta foi de uma adrenalina tão grande que não me lembro de ter chegado ao escritório tão disposta e acordada.

Meu maior delírio, com certeza, foi ao chegar em frente ao cruzamento da Avenida Chedid Jafet com a Avenida Presidente Juscelino Kubitscheck e seguir livre por entre os carros parados. O trajeto que demoro diariamente para fazer em 15 minutos, fiz em menos de cinco, naturalmente, sorrindo.

Quando contei ao Ezra sobre o transito daquela via e minha demora para chegar ao trabalho, ele levantou as sobrancelhas assustado. Quando lhe contei sobre meu gasto com combustível, IPVA, seguro do carro e manutenção em geral, ele igualmente me olhou com as sobrancelhas arregaladas e me disse com seu sotaque carregado: “É incrível como acham que os ciclistas são malucos. Para mim ser maluco é pagar tão caro para perder tanto tempo fechado em um carro”.

Eu, olhando para todos aqueles carros impacientes por chegar ao trabalho, via que, pelo prisma da bicicleta, a lógica da loucura se invertia muito fácil. Não tive como discordar: de fato, Ezra tinha razão.

Sem bicicleta em Cascais

Eu me encantei com Cascais muito antes de colocar os meus pés na Terrinha. Pesquisando sobre Portugal na internet, eu descobri que nos arredores de Lisboa existia um vilarejo muito charmoso, cujas sardinhas assadas, assim só por imaginar, já davam água na boca. Mas além das sardinhas e do espetacular mar português estalados na tela do meu computador, o que realmente fez meus olhinhos brilharem de satisfação foi quando li que em Cascais há uma ciclovia imensa bem ao lado da orla. E, como se não bastasse isso, o governo local cede bicicletas aos turistas para que possam aproveitar a cidade. Isso tudo sem cobrar nenhum Euro, o que foi o ponto de partida para que os meus pedais imaginários percorressem aquele lugar encantado sem muito esforço.

Quando pisei em Portugal passei meus primeiros dias por Lisboa e reservei o quinto dia para a tão sonhada Cascais. Era um sábado de sol e céu azul. Comprei a passagem do comboio (o famoso trem para o português brasileiro) e segui alegre, feito uma criança, na janelinha sonhando com meu dia perfeito. Logo que cheguei já dei de cara com uma série de bicicletas vermelhas, que lá se chamam “bicas” e abri um sorriso satisfeita.

Me aproximei então do primeiro posto de empréstimo de bicas, onde outros turistas igualmente entusiasmados se aglomeravam em busca de uma vermelhinha. Para nosso desgosto, as que estavam ali disponíveis estavam quebradas e não podiam ser emprestadas na ocasião. O português que tomava conta do local foi muito simpático e me informou que na parte central da ciadade certamente eu encontraria bicicletas para emprestar. Segui animada. Cascais sem dúvida é uma cidade charmosa, com pequenas ruelas e casas brancas, cheias de roupas penduradas em janelas e com um mar azul, lindo de doer os olhos. Quando cheguei ao segundo posto de empréstimo, olho com satisfação várias bicicletas enfileiradas, sorrindo, esperando por turistas felizes como eu. No posto, uma brasileira nada simpática que tomava conta do local  disse logo que me voluntariei a pegar uma bicicleta:  “Estão reservadas”. “Hum?” eu respondi sem acreditar muito. Sim reservadas para um grupo. Eram 15 bicicletas, lindas, vermelhas, brilhando sobre o sol e… reservadas. Bom, eu perguntei a que horas o grupo chegava e por quanto tempo estavam reservadas. Pretendia passar o dia todo em Cascais e não sairia de lá sem o motivo que me levou a chegar lá: andar de bicicleta.

Ela disse que não havia previsão. Não sabia que horas o grupo iria chegar e por quanto tempo iriam usar aquelas bicicletas. Tentei argumentar, até porque ela estava transformando meus anseios ciclísticos em um verdadeiro pesadelo kafkiano, mas não houve conversa. Expliquei sobre o blog, sobre o primeiro post internacional. Mas nada, absolutamente nada, comoveu aquela criatura, que provavelmente jamais foi de um país a outro só para andar de bicicleta.

Bom, se não tinha bicicleta, pelo menos, vamos as sardinhas, certo? Caminhei durante duas horas em um puta sol, olhando para a ciclovia, para aqueles turistas felizes e amaldiçoando a todos. Que injustiça seria aquela que só me restavam as sardinhas? Caminhei, comi as tais sardinhas que eram bem mais “salivativas” nos meus pensamentos e fui até o último posto, onde talvez existissem algumas bicas para emprestar.  Chegando no último posto, com os dedos dos pés e das mãos cruzados, novamente, nada de bicas. Voltei a caminhar rumo à estação de trem, dessa vez para a volta, chutando as pedrinhas do caminho. Inconsolável.

Na orla, porque acho que alguém teve dó de mim, avisto um loiro desses de cinema, olhando para o nada e me sorrindo convidativo. Eu, fingindo que não havia percebido aquele sujeito alto, loiro e forte, pedi para que ele tirasse uma foto minha e ele naturalmente o fez, além de puxar a conversa. Tratava-se de um sueco, chamado Peter, que trabalhava como consultor em uma empresa de petróleo. Passava alguns meses em diversas plataformas pelo mundo e seu lugar favorito o qual ele estava trabalhando no momento, era Cascais. Conversamos mais um pouco e eu, naturalmente, expus o meu drama ao sueco que sem titubear me disse que emprestaria sua bicicleta, se ela não estivesse quebrada. Achei que era alguma maldição.

Me despedi do sueco, continuei meu caminho ao lado da ciclovia, chutando pedrinhas, inconsolável. As 15 bicicletas permaneceram lá o dia todo e a brasileira irritante também. Olhei-as por mais algum tempo antes de partir, com a mesma irresignação que um cão vadio olha os frangos girando na grelha da padaria.

Peguei o trem de volta a Lisboa, quando o sol já ia se pondo. Voltei comigo pedalando sobre meus trilhos imaginários.

De bicicleta na Ciclovia da Marginal Pinheiros

A impressão de quem chega é que você está entrando em uma espécie de quartel general para bicicletas: um portão de grades metálicas e uma guarita controlam o acesso. Aceno para o funcionário que me olha de dentro do vidro e ele permite minha entrada para a as escadas.

Depois de encaixar os pneus em uma estreita canaleta de auxílio, escalo com a bike todos os degraus e ao final deles uma boa surpresa: a Marginal Pinheiros do alto! Quem não é acostumado com sua vista panorâmica, pode se encantar com o incontável número de carros que passam com velocidade e se perdem na extensão da pista, limitada num horizonte de viadutos. Olhando de cima, os carros, as pistas largas e o rio sufocado na poluição, enchem o espírito cosmopolita de qualquer ciclista de asfalto.

Ao final da passarela, antes de chegar finalmente à ciclovia, fico um pouco receosa: o passeio não cheira nada bem! E, ao julgar pela razão das narinas, a ciclovia da Marginal Pinheiros parece, num primeiro momento, um mico.

Mas tão logo desço as escadas da passarela, logo no ponto de partida (infelizmente a ciclovia conta apenas com 2 pontos de acesso) vejo vários capacetes, coloridos, ávidos por espaços quase sempre disputados com os carros nas vias regulares. Quem já sentiu o chiado do freio do ônibus ou uma buzinada de um taxista impaciente pressionando o seu pedal, certamente vai sorrir. Enfim vias livres!

Com o tempo bom ou sem chuvas na semana, depois de alguns giros, o odor desagradável vai diminuindo ao longo do caminho. Em alguns locais esse cenário pode mudar, mas de modo geral os 14 quilômetros da ciclovia te aguardam com bons ares.

O percurso conta com pontos de apoio para ciclistas com bancos para descanso, válvulas de encher pneus, bebedouros e até sprays, que são bem úteis nos dias de calor.

O trem que acompanha a paisagem não impede de perceber que São Paulo muda de cores e formas: quanto mais longe se alcança, mais baixos ficam os prédios, menos urbanizada é a paisagem.

Quem não usa bermuda acolchoada, não tem selim confortável ou suspensão na bike, pode se descontentar com as lombadas. Aliás, não encontramos razões óbvias até a conclusão deste post para a ciclovia contar com lombadas!

Além das lombadas, placas indicando a existência de capivaras (das quais encontramos somente rastros de cocô na pista) e placas solicitando a redução de velocidade nos dias de chuva, fazem parte do contexto curioso da ciclovia.

Os olhos podem se perder em linha reta. Um som no ouvido, a perna solta para girar e girar e girar. Talvez algo parecido com paz e algum mau cheiro. Famílias, speedys velozes, pessoas de todas as idades. Eu respiro fundo até onde o ar impuro me deixa : ai se toda a cidade pudesse ser assim…

Ciclovia Marginal Pinheiros

Horário de funcionamento – Diariamente das 6:00 5:30 às 18:00 18:30 horas.

A entrada pode ser feita pela estação Vila Olímpia da CPTM ou nas proximidades da estação Jurubatuba (Zona Sul) e também na Av. Miguel Yunes, na estação Santo Amaro e na Ponte Cidade Universitária. Fonte: CPTM (Atualização em 23 de Abril de 2013).

De bicicleta pelo começo

Nasci em uma cidade de casas. Casas pequenas, simples, que se alternavam em cores e formas quando vistas pela janela do banco de trás do carro da minha mãe. Eram casas pequenas, que se tornavam quase imperceptíveis se estávamos atrasados. Os carros, no entanto, eram grandes. Ainda mais quando vistos da perspectiva de uma pequena passageira: painel, direção, câmbio, bancos, espelhos. Eram tão grandes que determinavam a hierarquia do poder entre eu e meus irmãos, por isso eram constantes as disputas para ver quem iria no banco da frente ou ainda, quem seria capaz de manipular a direção do carro desligado, quando brincávamos de motorista. Os carros, como em toda família de classe média daquela época, eram símbolo de ascensão econômica. Por isso foram todos comemorados, diante da nossa condição de sobreviventes à inflação, recessões, planos econômicos e crises. Do primeiro Fusca, da Parati histórica até o primeiro carro com direção hidráulica, lembro-me de ter sido muito feliz. Essa felicidade movida em motores à explosão.

Cresci numa cidade de prédios. Prédios grandes, às vezes suntuosos e geralmente altos. Altos a ponto de ultrapassarem a visão limitada da janela do ônibus. Altos que chegam às vezes a tampar o sol. Mas isso era assim quando cheguei por aqui, há mais ou menos dez anos.

Hoje moro em uma cidade de carros. Carros que se acumulam cada vez mais em vias estreitas. Carros que buzinam em uma orquestra agonizante a música da impaciência. Impaciência que não é só minha, mas de boa parte dos motoristas ao lado. Alguns suspiros, espreguiçadas, cigarros sorvidos, celulares consumidos e motos, milhares de motos, lançando um agudo, estridente, no meio da via, capaz de irritar o mais calmo dos seres humanos.

Quando cheguei por aqui me encantei com os prédios, como todo estrangeiro se encanta com a paisagem alheia. Mas me desencantei, em proporções de um divórcio, quando o trânsito efetivamente começou a tornar os minutos do meu relógio mais curtos. Foi assim que eu comecei a odiar São Paulo.

Mas não me divorciei e na vida real também não casei. Como toda história óbvia, acabei comprando uma bicicleta: desmontável e absolutamente linda.

Começamos em trajetos tímidos, pelas vias sossegadas do bairro, que restavam aos finais de semana. Aos poucos a bike ganhou luzinhas, revestimentos para os pneus e amigos. Amigos outros que fizeram os trajetos curtos se tornarem mais longos e mais bonitos.

Um dia, depois do que já nos conhecíamos e que já havia lhe apresentado minha paixão em duas rodas, ele surgiu com um cabelo e uma barba enormes e uma speedy velha, quase enferrujada, que havia trazido do sítio do avô. Uma Caloi 10 pela qual ele se orgulhou muito e se tornou minha maior e mais apreciável parceria. Depois da amizade e da Caloi veio a máquina fotográfica e depois a minha vontade de escrever e tudo isso virou esse blog, de bicicleta.

De bicicleta vamos entendendo mais sobre as nossas distâncias. As nossas e as do mundo. Eu sigo escrevendo e o Renê segue fotografando. Com nossas duas magrelas e outras que se juntam a nós, nos permitimos experimentar São Paulo com outros cheiros, outras cores e outros sons. Colocamos a nossa irritação habitual do trânsito nos pedais e estamos por aí, registrando tudo.

Hoje vivemos numa cidade de bicicleta. Esse blog é sobre isso.