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De bicicleta, hoje foi um daqueles dias…

Hoje foi um daqueles dias em que a Helga me liga e fica questionando a razão de insistirmos em andar de bicicleta pelas ruas de São Paulo. Hoje foi um daqueles dias que todos os ciclistas urbanos ficam consternados com a violência do trânsito e vão juntos manifestar. Hoje foi um daqueles dias em que a Polícia Militar e a CET se solidarizam a você e ficam ao seu lado. Hoje foi um daqueles dias em que os meios de comunicação olham para um fato e decidem transformá-lo em notícia. Hoje foi um daqueles dias que seu pai deixa um recado pedindo para você não fazer parte das estatísticas. Isto tudo porque hoje foi mais um daqueles dias nos quais um pai, um avô, um tio, um vizinho, um amigo, um colega e um trabalhador morre pedalando em uma das vias mais importantes de São Paulo, a Avenida Sumaré.

Hoje foi o dia em que morreu o ciclista Antonio Bertolucci, um senhor de 68 anos que, segundo relatos da família, possuía mais de 15 bicicletas e pedalou durante a maior parte da sua vida. Ele morreu atropelado por um ônibus ao fazer um passeio matinal de rotina entre sua casa, uma bicicletaria, a padaria e a casa do seu filho. Apesar de não conhecer o Sr. Antonio, o que deixa indignado é saber que poderia ter sido eu, poderia ter sido a Helga, poderia ter sido qualquer um dos meus amigos que usam a bicicleta como meio de transporte ou poderia ter sido você, como aconteceu com os 49 ciclistas que foram atropelados e mortos em São Paulo em 2010 pela falta de educação e respeito às leis no trânsito e pela omissão dos governos e seus órgãos.

O Código de Trânsito Brasileiro é claro ao reconhecer a bicicleta como um veículo de transporte e estabelece obrigações aos motoristas de veículos automotores como: guardar a distância lateral de um metro e cinqüenta centímetros ao passar ou ultrapassar bicicleta (Art. 201), reduzir a velocidade ao ultrapassar um ciclista (Art. 220), ceder passagem aos pedestres e ciclistas durante a manobra de mudança de direção (Art. 38), além do estar bem explícito que os veículos maiores são responsáveis pela segurança dos veículos menores e dos pedestres. No Código e em leis estaduais e municipais há também uma série de dispositivos que obrigam o Estado a garantir a segurança viária. O Art. 24 do CTB, por exemplo, estabelece que compete aos municípios “planejar, projetar, regulamentar e operar o trânsito de veículos, de pedestres e de animais, e promover o desenvolvimento da circulação e da segurança de ciclistas”. Oficialmente a cidade de São Paulo tem aproximadamente 80 KMs de vias adequadas ao uso de bicicleta, mas só 20 KMs funcionam para o transporte urbano. Em todos os outros milhares de quilômetros de vias em São Paulo o ciclista tem que sobreviver por seus próprios meios, enfrentando os carros, os ônibus, as motocicletas, os buracos e a falta de sinalização.

O dia terminou com um protesto. Mais de 100 ciclistas e alguns familiares do Sr. Antonio, com o apoio da PM e da CET e cobertura da imprensa, se reuniram no local do acidente para uma manifestação e a instalação de uma Ghost Bike. Foram pintadas várias bicicletas na Av. Sumaré e na alça de acesso, além da frase “DEVAGAR VIDAS”. Com isto nós esperamos chamar atenção das pessoas e das autoridades de trânsito e não termos que nunca mais colocar uma Ghost Bike nas ruas de São Paulo.

Para a Helga, para os ciclistas e para órgãos públicos de trânsito eu deixo a frase do Caio Fernando de Abreu que circulou hoje na lista da Bicicletada: “E tem o seguinte, meus senhores: não vamos enlouquecer, nem nos matar, nem desistir. Pelo contrario: vamos ficar ótimos e incomodar bastante ainda”.

Para o meu pai, fica a Nara Leão: “Podem me prender, podem me bater /
Podem até deixar-me sem comer. Que eu não mudo de opinião […] Se eu morrer amanhã, seu doutor / Estou pertinho do céu”.

Nada paga o vento no meu rosto, a rapidez na locomoção, a facilidade para “estacionar”, o baixo consumo de combustível, fazer exercício físico, conhecer pessoas, entre outras tantas outras coisas que a bicicleta proporciona. Acho que vale a pena lutar por esta causa sendo mais um nas ruas. Vou incomodar bastante ainda e, se eu morrer amanhã, doutor, estou pertinho do céu.

@renejrfernandes

Veja as reportagens: UOL http://bit.ly/irkTMT TERRA http://bit.ly/kmGsr8  G1 http://glo.bo/lbmVGL  IG http://bit.ly/kfCve8  Jornal da Globo http://glo.bo/m0xm5a.

De bicicleta pelo começo

Nasci em uma cidade de casas. Casas pequenas, simples, que se alternavam em cores e formas quando vistas pela janela do banco de trás do carro da minha mãe. Eram casas pequenas, que se tornavam quase imperceptíveis se estávamos atrasados. Os carros, no entanto, eram grandes. Ainda mais quando vistos da perspectiva de uma pequena passageira: painel, direção, câmbio, bancos, espelhos. Eram tão grandes que determinavam a hierarquia do poder entre eu e meus irmãos, por isso eram constantes as disputas para ver quem iria no banco da frente ou ainda, quem seria capaz de manipular a direção do carro desligado, quando brincávamos de motorista. Os carros, como em toda família de classe média daquela época, eram símbolo de ascensão econômica. Por isso foram todos comemorados, diante da nossa condição de sobreviventes à inflação, recessões, planos econômicos e crises. Do primeiro Fusca, da Parati histórica até o primeiro carro com direção hidráulica, lembro-me de ter sido muito feliz. Essa felicidade movida em motores à explosão.

Cresci numa cidade de prédios. Prédios grandes, às vezes suntuosos e geralmente altos. Altos a ponto de ultrapassarem a visão limitada da janela do ônibus. Altos que chegam às vezes a tampar o sol. Mas isso era assim quando cheguei por aqui, há mais ou menos dez anos.

Hoje moro em uma cidade de carros. Carros que se acumulam cada vez mais em vias estreitas. Carros que buzinam em uma orquestra agonizante a música da impaciência. Impaciência que não é só minha, mas de boa parte dos motoristas ao lado. Alguns suspiros, espreguiçadas, cigarros sorvidos, celulares consumidos e motos, milhares de motos, lançando um agudo, estridente, no meio da via, capaz de irritar o mais calmo dos seres humanos.

Quando cheguei por aqui me encantei com os prédios, como todo estrangeiro se encanta com a paisagem alheia. Mas me desencantei, em proporções de um divórcio, quando o trânsito efetivamente começou a tornar os minutos do meu relógio mais curtos. Foi assim que eu comecei a odiar São Paulo.

Mas não me divorciei e na vida real também não casei. Como toda história óbvia, acabei comprando uma bicicleta: desmontável e absolutamente linda.

Começamos em trajetos tímidos, pelas vias sossegadas do bairro, que restavam aos finais de semana. Aos poucos a bike ganhou luzinhas, revestimentos para os pneus e amigos. Amigos outros que fizeram os trajetos curtos se tornarem mais longos e mais bonitos.

Um dia, depois do que já nos conhecíamos e que já havia lhe apresentado minha paixão em duas rodas, ele surgiu com um cabelo e uma barba enormes e uma speedy velha, quase enferrujada, que havia trazido do sítio do avô. Uma Caloi 10 pela qual ele se orgulhou muito e se tornou minha maior e mais apreciável parceria. Depois da amizade e da Caloi veio a máquina fotográfica e depois a minha vontade de escrever e tudo isso virou esse blog, de bicicleta.

De bicicleta vamos entendendo mais sobre as nossas distâncias. As nossas e as do mundo. Eu sigo escrevendo e o Renê segue fotografando. Com nossas duas magrelas e outras que se juntam a nós, nos permitimos experimentar São Paulo com outros cheiros, outras cores e outros sons. Colocamos a nossa irritação habitual do trânsito nos pedais e estamos por aí, registrando tudo.

Hoje vivemos numa cidade de bicicleta. Esse blog é sobre isso.