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Sem bicicleta, em Portugal

Há pouco mais de duas semana estou morando em Portugal.  Desde então não encostei em uma bicicleta. Distâncias mais curtas tenho feito a pé. É ótimo. Os motoristas realmente respeitam a faixa de pedestres. Para os deslocamentos mais longos aluguei aqui um carro por dez semanas. Este período todo por pouco mais de 200 Euros. Achei bastante barato. Depois disto as coisas ficam um pouco mais caras. Estacionar é quase sempre pago (a não ser nas zonas residenciais), os pedágios são caros e o combustível é mais caro que no Brasil. Agora está 1,68 Euro por litro. Mesmo assim está sendo uma boa experiência e tem me dado comodidade. É só não entrar em Lisboa às 8 horas da manhã. O trânsito é  quase como trânsito de São Paulo.

Placa na saída de um posto Galp, em Lisboa. Foto: @renejrfernandes.

Placa na saída de um posto Galp, em Lisboa. Foto: @renejrfernandes.

Ontem (10 de Março) de manhã, enquanto dirigia, ouvi em uma rádio sobre as prisões de motoristas embriagados em Portugal. Era por volta do mesmo horário em que o motorista Alex Kozloff Siwek, agora indiciado por tentativa de homicídio, fuga do local do acidente, embriaguez ao volante e manobras arriscadas, atropelava em São Paulo o trabalhador David Santos Souza, decepando seu braço.

Hoje fui rever as estatísticas. Portugal tem aproximadamente o mesmo número de habitantes de São Paulo – 11 milhões. No último sábado, aqui em Portugal, foram fiscalizados 2759 motoristas, do quais 63 estavam embriagados, ou seja, foi fiscalizado 0,002% da população e destes, 2,3% estavam embriagados. Em São Paulo, no sábado retrasado, foram fiscalizados só 507 motoristas (um percentual 5 vezes menor) e destes, 7,3% (34 casos) estavam bêbados, um número 3 vezes maior. Fazendo uma “regra de 3″, sem qualquer rigor estatístico, é possível ver que Lei Seca no Brasil continua sendo tratada como piada, pelas pessoas e pelo poder público e a vida banalizada.

@renejrfernandes

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De bicicleta, em Lisboa

Me perdi nas ladeiras em volta do Castelo de São Jorge. Achei vários mirantes que não tinha visto antes. Peguei um eléctrico que eu não sabia para onde ia. No caminho a guarda-freio (motornista) parou duas vezes. Uma para empurrar um carro que estava no trilho e outra para expulsar uns meninos que andavam do lado de fora. Não adiantou. Eles se esconderam e continuaram lá. Fui até o ponto final. Então decidi perguntar onde eu estava e como voltava. Na volta enxerguei um lugar que alugava bicicletas. Desci e peguei uma pelo resto da tarde. Pedalei pelas margens do Tejo até depois da Torre de Belém. Voltei, passando pelo Mosteiro dos Jerónimos e parei na Casa dos Pastéis de Belém. Comi um Guardanapo, dois Pastéis de Belém, um pastél de bacalhau e uma cerveja. A conta ficou absurdamente pequena. Inversamente proporcional à minha felicidade.

No resto da volta decidi me aventurar um pouco pelas ruas com a bicicleta, junto aos carros e aos eléctricos, em vez de seguir pela ciclovia. O trânsito estava intenso, mas no geral os motoristas eram pacientes. Os guarda-freios têm que esperar obrigatóriamente, já que não podem fugir dos trilhos – estes sim – o maior perigo. Parece sempre que as rodas vão enroscar e você vai cair. Devolvi a bicicleta e fui jantar bacalhau na Bica do Sapato, acompanhado de vinho do Alentejo. Terminei este dia com o sabor de que Lisboa é um dos lugares mais gostosos em que já estive.

@renejrfernandes

Informação: Aluguei a bicicleta no http://www.bikeiberia.com/.

Sem bicicleta em Cascais

Eu me encantei com Cascais muito antes de colocar os meus pés na Terrinha. Pesquisando sobre Portugal na internet, eu descobri que nos arredores de Lisboa existia um vilarejo muito charmoso, cujas sardinhas assadas, assim só por imaginar, já davam água na boca. Mas além das sardinhas e do espetacular mar português estalados na tela do meu computador, o que realmente fez meus olhinhos brilharem de satisfação foi quando li que em Cascais há uma ciclovia imensa bem ao lado da orla. E, como se não bastasse isso, o governo local cede bicicletas aos turistas para que possam aproveitar a cidade. Isso tudo sem cobrar nenhum Euro, o que foi o ponto de partida para que os meus pedais imaginários percorressem aquele lugar encantado sem muito esforço.

Quando pisei em Portugal passei meus primeiros dias por Lisboa e reservei o quinto dia para a tão sonhada Cascais. Era um sábado de sol e céu azul. Comprei a passagem do comboio (o famoso trem para o português brasileiro) e segui alegre, feito uma criança, na janelinha sonhando com meu dia perfeito. Logo que cheguei já dei de cara com uma série de bicicletas vermelhas, que lá se chamam “bicas” e abri um sorriso satisfeita.

Me aproximei então do primeiro posto de empréstimo de bicas, onde outros turistas igualmente entusiasmados se aglomeravam em busca de uma vermelhinha. Para nosso desgosto, as que estavam ali disponíveis estavam quebradas e não podiam ser emprestadas na ocasião. O português que tomava conta do local foi muito simpático e me informou que na parte central da ciadade certamente eu encontraria bicicletas para emprestar. Segui animada. Cascais sem dúvida é uma cidade charmosa, com pequenas ruelas e casas brancas, cheias de roupas penduradas em janelas e com um mar azul, lindo de doer os olhos. Quando cheguei ao segundo posto de empréstimo, olho com satisfação várias bicicletas enfileiradas, sorrindo, esperando por turistas felizes como eu. No posto, uma brasileira nada simpática que tomava conta do local  disse logo que me voluntariei a pegar uma bicicleta:  “Estão reservadas”. “Hum?” eu respondi sem acreditar muito. Sim reservadas para um grupo. Eram 15 bicicletas, lindas, vermelhas, brilhando sobre o sol e… reservadas. Bom, eu perguntei a que horas o grupo chegava e por quanto tempo estavam reservadas. Pretendia passar o dia todo em Cascais e não sairia de lá sem o motivo que me levou a chegar lá: andar de bicicleta.

Ela disse que não havia previsão. Não sabia que horas o grupo iria chegar e por quanto tempo iriam usar aquelas bicicletas. Tentei argumentar, até porque ela estava transformando meus anseios ciclísticos em um verdadeiro pesadelo kafkiano, mas não houve conversa. Expliquei sobre o blog, sobre o primeiro post internacional. Mas nada, absolutamente nada, comoveu aquela criatura, que provavelmente jamais foi de um país a outro só para andar de bicicleta.

Bom, se não tinha bicicleta, pelo menos, vamos as sardinhas, certo? Caminhei durante duas horas em um puta sol, olhando para a ciclovia, para aqueles turistas felizes e amaldiçoando a todos. Que injustiça seria aquela que só me restavam as sardinhas? Caminhei, comi as tais sardinhas que eram bem mais “salivativas” nos meus pensamentos e fui até o último posto, onde talvez existissem algumas bicas para emprestar.  Chegando no último posto, com os dedos dos pés e das mãos cruzados, novamente, nada de bicas. Voltei a caminhar rumo à estação de trem, dessa vez para a volta, chutando as pedrinhas do caminho. Inconsolável.

Na orla, porque acho que alguém teve dó de mim, avisto um loiro desses de cinema, olhando para o nada e me sorrindo convidativo. Eu, fingindo que não havia percebido aquele sujeito alto, loiro e forte, pedi para que ele tirasse uma foto minha e ele naturalmente o fez, além de puxar a conversa. Tratava-se de um sueco, chamado Peter, que trabalhava como consultor em uma empresa de petróleo. Passava alguns meses em diversas plataformas pelo mundo e seu lugar favorito o qual ele estava trabalhando no momento, era Cascais. Conversamos mais um pouco e eu, naturalmente, expus o meu drama ao sueco que sem titubear me disse que emprestaria sua bicicleta, se ela não estivesse quebrada. Achei que era alguma maldição.

Me despedi do sueco, continuei meu caminho ao lado da ciclovia, chutando pedrinhas, inconsolável. As 15 bicicletas permaneceram lá o dia todo e a brasileira irritante também. Olhei-as por mais algum tempo antes de partir, com a mesma irresignação que um cão vadio olha os frangos girando na grelha da padaria.

Peguei o trem de volta a Lisboa, quando o sol já ia se pondo. Voltei comigo pedalando sobre meus trilhos imaginários.