Category Archives: Bicicletas

De bicicleta, em Lisboa

Me perdi nas ladeiras em volta do Castelo de São Jorge. Achei vários mirantes que não tinha visto antes. Peguei um eléctrico que eu não sabia para onde ia. No caminho a guarda-freio (motornista) parou duas vezes. Uma para empurrar um carro que estava no trilho e outra para expulsar uns meninos que andavam do lado de fora. Não adiantou. Eles se esconderam e continuaram lá. Fui até o ponto final. Então decidi perguntar onde eu estava e como voltava. Na volta enxerguei um lugar que alugava bicicletas. Desci e peguei uma pelo resto da tarde. Pedalei pelas margens do Tejo até depois da Torre de Belém. Voltei, passando pelo Mosteiro dos Jerónimos e parei na Casa dos Pastéis de Belém. Comi um Guardanapo, dois Pastéis de Belém, um pastél de bacalhau e uma cerveja. A conta ficou absurdamente pequena. Inversamente proporcional à minha felicidade.

No resto da volta decidi me aventurar um pouco pelas ruas com a bicicleta, junto aos carros e aos eléctricos, em vez de seguir pela ciclovia. O trânsito estava intenso, mas no geral os motoristas eram pacientes. Os guarda-freios têm que esperar obrigatóriamente, já que não podem fugir dos trilhos – estes sim – o maior perigo. Parece sempre que as rodas vão enroscar e você vai cair. Devolvi a bicicleta e fui jantar bacalhau na Bica do Sapato, acompanhado de vinho do Alentejo. Terminei este dia com o sabor de que Lisboa é um dos lugares mais gostosos em que já estive.

@renejrfernandes

Informação: Aluguei a bicicleta no http://www.bikeiberia.com/.

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De bicicleta, para o trabalho

Todos os dias, por volta das nove horas da manhã, eu assisto à mesma cena impaciente: as luzes dos freios se acendem e apagam, enquanto os carros se deslocam por milímetros. Por vezes, uma buzina ou outra confessa a típica irritação. Eu, nessas horas, costumo apenas aumentar o som do rádio e assistir, de forma resignada, à mesma paisagem de luzes vermelhas, que se mostra diante do vidro do meu carro.

Todos os dias essa cena acontece, no cruzamento da Avenida Chedid Jafet com a Avenida Presidente Juscelino Kubitscheck. Por incrível que pareça, estou há menos de 100 metros do meu trabalho, no entanto, demoro de 15 a 20 minutos para alcançá-lo. Tenho um carro 1.0, que não atinge grandes velocidades, mas mesmo para os padrões do meu possante, não há como não achar que essa situação diária é um enorme contrassenso.

Para piorar,  olho diante das grades do Parque do Povo e vejo diversas bicicletas transitando livres por ele. Por vezes, algumas passam ágeis entre os carros sobre o cruzamento engarrafado, deixando meus olhos bem aflitos e meus pensamentos inquietos: afinal, por que não vir trabalhar de bicicleta?

E como todo ser trabalhador que se preze, as respostas mais contundentes já se passaram pela minha cabeça: (i) porque é perigoso; (ii) porque é loucura; (iii) porque você vai chegar suado e fedido; (iv) porque o trânsito de São Paulo não comporta ciclistas nos dias de semana; (v) porque é um risco desnecessário.

Mas foi no meio de todas essas questões que o Renê me apresentou o Ezra. Ezra é o que qualquer um definiria como um gringo maluco: um americano, nascido em Austin, que passou dois anos viajando de bicicleta para chegar ao Brasil. Ezra vive de bicicleta pelas ruas de São Paulo e não se vê longe do seu entusiástico meio de transporte. Ele chega rápido e bem animado em qualquer lugar da cidade e, por ser professor de inglês e de matemática, entre uma aula e outra ele segue rodando por aí.

Pedi ao Ezra para me acompanhar com a bike para chegar sem carro ao trabalho no Dia Mundial Sem Carro. Ele se propôs a me dar algumas dicas sobre como andar de bicicleta em dias de semana e chegar viva à labuta diária. Marcamos então às 7:30 da manhã na  Avenida Sumaré e, mesmo com o tráfego não muito intenso, pude vivenciar um pouco do que é transitar pela cidade com a bike em um dia comum. Escolhi um caminho sem tantos carros, o que não me impediu de passar por vias mais movimentadas. O que pude notar, de certa forma, é que apesar da disputa por espaço, os carros, ônibus e taxis têm se mostrado mais dispostos a conviver com bicicletas. Talvez isso seja uma pressão imposta pelo número de ciclistas que vem crescendo na cidade de São Paulo. Talvez isso seja uma impressão pessoal de alguém que, em razão do medo, pintava o trânsito e os motoristas muito mais feios do que eles realmente são.

Fato ou não. Demorei exatos 40 minutos para chegar ao meu trabalho. No meio do caminho, me diverti bastante com as dicas do Ezra, ditas com um sotaque carregado. Sobre os meus questionamentos iniciais, pude comprovar que são todos verdadeiros, no entanto, o único fator que realmente vira um problema quando o assunto é ir trabalhar de bicicleta chama-se: chuveiro. Dependendo do seu nível de transpiração e do seu preparo físico, você vai fatalmente chegar suado para trabalhar e isso pode não ser tão legal.

Do resto, ir para o trabalho de bicicleta foi de uma adrenalina tão grande que não me lembro de ter chegado ao escritório tão disposta e acordada.

Meu maior delírio, com certeza, foi ao chegar em frente ao cruzamento da Avenida Chedid Jafet com a Avenida Presidente Juscelino Kubitscheck e seguir livre por entre os carros parados. O trajeto que demoro diariamente para fazer em 15 minutos, fiz em menos de cinco, naturalmente, sorrindo.

Quando contei ao Ezra sobre o transito daquela via e minha demora para chegar ao trabalho, ele levantou as sobrancelhas assustado. Quando lhe contei sobre meu gasto com combustível, IPVA, seguro do carro e manutenção em geral, ele igualmente me olhou com as sobrancelhas arregaladas e me disse com seu sotaque carregado: “É incrível como acham que os ciclistas são malucos. Para mim ser maluco é pagar tão caro para perder tanto tempo fechado em um carro”.

Eu, olhando para todos aqueles carros impacientes por chegar ao trabalho, via que, pelo prisma da bicicleta, a lógica da loucura se invertia muito fácil. Não tive como discordar: de fato, Ezra tinha razão.

De bicicleta, hoje foi um daqueles dias…

Hoje foi um daqueles dias em que a Helga me liga e fica questionando a razão de insistirmos em andar de bicicleta pelas ruas de São Paulo. Hoje foi um daqueles dias que todos os ciclistas urbanos ficam consternados com a violência do trânsito e vão juntos manifestar. Hoje foi um daqueles dias em que a Polícia Militar e a CET se solidarizam a você e ficam ao seu lado. Hoje foi um daqueles dias em que os meios de comunicação olham para um fato e decidem transformá-lo em notícia. Hoje foi um daqueles dias que seu pai deixa um recado pedindo para você não fazer parte das estatísticas. Isto tudo porque hoje foi mais um daqueles dias nos quais um pai, um avô, um tio, um vizinho, um amigo, um colega e um trabalhador morre pedalando em uma das vias mais importantes de São Paulo, a Avenida Sumaré.

Hoje foi o dia em que morreu o ciclista Antonio Bertolucci, um senhor de 68 anos que, segundo relatos da família, possuía mais de 15 bicicletas e pedalou durante a maior parte da sua vida. Ele morreu atropelado por um ônibus ao fazer um passeio matinal de rotina entre sua casa, uma bicicletaria, a padaria e a casa do seu filho. Apesar de não conhecer o Sr. Antonio, o que deixa indignado é saber que poderia ter sido eu, poderia ter sido a Helga, poderia ter sido qualquer um dos meus amigos que usam a bicicleta como meio de transporte ou poderia ter sido você, como aconteceu com os 49 ciclistas que foram atropelados e mortos em São Paulo em 2010 pela falta de educação e respeito às leis no trânsito e pela omissão dos governos e seus órgãos.

O Código de Trânsito Brasileiro é claro ao reconhecer a bicicleta como um veículo de transporte e estabelece obrigações aos motoristas de veículos automotores como: guardar a distância lateral de um metro e cinqüenta centímetros ao passar ou ultrapassar bicicleta (Art. 201), reduzir a velocidade ao ultrapassar um ciclista (Art. 220), ceder passagem aos pedestres e ciclistas durante a manobra de mudança de direção (Art. 38), além do estar bem explícito que os veículos maiores são responsáveis pela segurança dos veículos menores e dos pedestres. No Código e em leis estaduais e municipais há também uma série de dispositivos que obrigam o Estado a garantir a segurança viária. O Art. 24 do CTB, por exemplo, estabelece que compete aos municípios “planejar, projetar, regulamentar e operar o trânsito de veículos, de pedestres e de animais, e promover o desenvolvimento da circulação e da segurança de ciclistas”. Oficialmente a cidade de São Paulo tem aproximadamente 80 KMs de vias adequadas ao uso de bicicleta, mas só 20 KMs funcionam para o transporte urbano. Em todos os outros milhares de quilômetros de vias em São Paulo o ciclista tem que sobreviver por seus próprios meios, enfrentando os carros, os ônibus, as motocicletas, os buracos e a falta de sinalização.

O dia terminou com um protesto. Mais de 100 ciclistas e alguns familiares do Sr. Antonio, com o apoio da PM e da CET e cobertura da imprensa, se reuniram no local do acidente para uma manifestação e a instalação de uma Ghost Bike. Foram pintadas várias bicicletas na Av. Sumaré e na alça de acesso, além da frase “DEVAGAR VIDAS”. Com isto nós esperamos chamar atenção das pessoas e das autoridades de trânsito e não termos que nunca mais colocar uma Ghost Bike nas ruas de São Paulo.

Para a Helga, para os ciclistas e para órgãos públicos de trânsito eu deixo a frase do Caio Fernando de Abreu que circulou hoje na lista da Bicicletada: “E tem o seguinte, meus senhores: não vamos enlouquecer, nem nos matar, nem desistir. Pelo contrario: vamos ficar ótimos e incomodar bastante ainda”.

Para o meu pai, fica a Nara Leão: “Podem me prender, podem me bater /
Podem até deixar-me sem comer. Que eu não mudo de opinião [...] Se eu morrer amanhã, seu doutor / Estou pertinho do céu”.

Nada paga o vento no meu rosto, a rapidez na locomoção, a facilidade para “estacionar”, o baixo consumo de combustível, fazer exercício físico, conhecer pessoas, entre outras tantas outras coisas que a bicicleta proporciona. Acho que vale a pena lutar por esta causa sendo mais um nas ruas. Vou incomodar bastante ainda e, se eu morrer amanhã, doutor, estou pertinho do céu.

@renejrfernandes

Veja as reportagens: UOL http://bit.ly/irkTMT TERRA http://bit.ly/kmGsr8  G1 http://glo.bo/lbmVGL  IG http://bit.ly/kfCve8  Jornal da Globo http://glo.bo/m0xm5a.

De bicicleta, com o prefeito de Portland

Na última sexta-feira (3 de Junho) participei de uma volta de bicicleta pelo centro de São Paulo com o prefeito de Portland (Oregon – EUA) Sam Adams, que estava no Brasil para a C40. O passeio aconteceu a convite da Ciclocidade, a Associação de Ciclistas Urbanos de São Paulo. Estiveram presentes também o secretário do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo Eduardo Jorge, o diretor geral da Ciclocidade Thiago Benicchio, além de outros ciclistas, que circularam desde a frente da Prefeitura de São Paulo, passando pelo Largo São Francisco, pela Sé, pelo Pátio do Colégio, pela Rua Boa Vista, Praça da República, o Theatro Mvnicipal e retornando à Prefeitura.

Ciclistas e o prefeito de Portland Sam Adams. Foto: João Lacerda / Transporte Ativo

Portland, que tem tem 600 mil habitantes e 2 milhões na região metropolitana, é considerada a cidade americana mais adequada para os ciclistas. A cidade conta com uma infra-estrutura que engloba ciclovias e faixas especiais, além das tradicionais vias compartilhadas, travessias de pontes com passarelas específicas para bicicletas, e incentivos para a construção de bicicletários e para o uso da bicicleta em si como alternativa de locomoção em um plano do Departamento de Transportes que vai até 2030.

Eduardo Jorge, Sam Adams e Thiago Benicchio.

Ao passear pelo centro, Adams (que pedala diariamente) fez elogios à simpatia do povo brasileiro e destacou que em São Paulo há um grande potencial para o uso da bicicleta. Ele vê na grande quantidade de pessoas se locomovendo a pé uma demanda reprimida que poderia usar este modal, sendo necessário implantar faixas compartilhadas e melhorar a organização e a distribuição do espaço urbano.

Desfavor à causa

O passeio com Sam Adams foi acompanhado pelo o repórter Ricardo Ferraz, da TV Cultura. Ele fez uma ótima reportagem, mostrando a visão do prefeito em relação ao uso das bicicletas no ambiente urbano como meio de locomoção. No final da reportagem, o cientista político Carlos Novaes, comentarista do telejornal, desfez todo o esforço de pacificar o trânsito e melhorar a locomoção em São Paulo. Em sua fala, ele afirma não acreditar no uso da bicicleta como modal de transporte devido “às grandes distâncias” da cidade e dá opiniões erradas em relação à poluição que o ciclista inala, além de outras críticas infundadas.

Assista ao vídeo

Volta de bicicleta com Sam Adams em São Paulo from Associação Ciclocidade on Vimeo.

A resposta

Os comentários fizeram com que a Ciclocidade se manifestasse, mostrando em carta à TV Cultura que a bicicleta já é uma realidade como meio de transporte em São Paulo. Na carta a Associação destacou que, segundo a pesquisa Origem Destino do Metrô (2007), pelo menos 155 mil cidadãos utilizam a bicicleta para ir e voltar do trabalho todos os dias na cidade de São Paulo. Número muito superior, por exemplo, às 80 mil viagens realizadas de táxi na capital. Esta pesquisa diz ainda que 45% dos usuários de bicicleta estão entre 30 e 50 anos, contrariando o comentarista que afirmou que pedalar é apenas para jovens.

A resposta também mostrou que a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), órgão ligado à Secretaria Municipal de Transportes, possui um Departamento de Planejamento Cicloviário, além de hospedar o Grupo de Trabalho Pró-Ciclista (que envolve diversos órgãos municipais com o objetivo de fomentar o uso da bicicleta na cidade). Portanto, o próprio município, em sintonia com muitas cidades ao redor do planeta, afirma textualmente em seu organograma que a bicicleta, além de instrumento de lazer, é sim um meio de transporte.

Quanto à poluição um estudo realizado pela Faculdade de Medicina da USP durante a série RespirAr (exibida pelo telejornal SPTV da TV Globo) mostra que quem está de bicicleta respira 17% menos poluentes do que quem está dentro de um carro. A utilização da bicicleta também contribui sensivelmente para minimizar os custos sociais de  problemas cardíacos, obesidade e tantas outras doenças contemporâneas que afetam a sociedade em escala endêmica, aumentando a longevidade de seus utilizadores.

Para levar

Longe da bicicleta ser a solução para os problemas de mobilidade urbana. Isto passa por soluções só encontradas em políticas públicas muito mais abrangentes que simplesmente incentivar o uso da bicicleta. A intermodalidade, o aumento da malha e a disposição de transportes públicos, o planejamento urbano, entre outros tantos elementos são fundamentais, mas um pouco nós estamos fazendo. Só de estarmos lá, já somos vários carros a menos.

@renejrfernandes

Sem bicicleta em Cascais

Eu me encantei com Cascais muito antes de colocar os meus pés na Terrinha. Pesquisando sobre Portugal na internet, eu descobri que nos arredores de Lisboa existia um vilarejo muito charmoso, cujas sardinhas assadas, assim só por imaginar, já davam água na boca. Mas além das sardinhas e do espetacular mar português estalados na tela do meu computador, o que realmente fez meus olhinhos brilharem de satisfação foi quando li que em Cascais há uma ciclovia imensa bem ao lado da orla. E, como se não bastasse isso, o governo local cede bicicletas aos turistas para que possam aproveitar a cidade. Isso tudo sem cobrar nenhum Euro, o que foi o ponto de partida para que os meus pedais imaginários percorressem aquele lugar encantado sem muito esforço.

Quando pisei em Portugal passei meus primeiros dias por Lisboa e reservei o quinto dia para a tão sonhada Cascais. Era um sábado de sol e céu azul. Comprei a passagem do comboio (o famoso trem para o português brasileiro) e segui alegre, feito uma criança, na janelinha sonhando com meu dia perfeito. Logo que cheguei já dei de cara com uma série de bicicletas vermelhas, que lá se chamam “bicas” e abri um sorriso satisfeita.

Me aproximei então do primeiro posto de empréstimo de bicas, onde outros turistas igualmente entusiasmados se aglomeravam em busca de uma vermelhinha. Para nosso desgosto, as que estavam ali disponíveis estavam quebradas e não podiam ser emprestadas na ocasião. O português que tomava conta do local foi muito simpático e me informou que na parte central da ciadade certamente eu encontraria bicicletas para emprestar. Segui animada. Cascais sem dúvida é uma cidade charmosa, com pequenas ruelas e casas brancas, cheias de roupas penduradas em janelas e com um mar azul, lindo de doer os olhos. Quando cheguei ao segundo posto de empréstimo, olho com satisfação várias bicicletas enfileiradas, sorrindo, esperando por turistas felizes como eu. No posto, uma brasileira nada simpática que tomava conta do local  disse logo que me voluntariei a pegar uma bicicleta:  “Estão reservadas”. “Hum?” eu respondi sem acreditar muito. Sim reservadas para um grupo. Eram 15 bicicletas, lindas, vermelhas, brilhando sobre o sol e… reservadas. Bom, eu perguntei a que horas o grupo chegava e por quanto tempo estavam reservadas. Pretendia passar o dia todo em Cascais e não sairia de lá sem o motivo que me levou a chegar lá: andar de bicicleta.

Ela disse que não havia previsão. Não sabia que horas o grupo iria chegar e por quanto tempo iriam usar aquelas bicicletas. Tentei argumentar, até porque ela estava transformando meus anseios ciclísticos em um verdadeiro pesadelo kafkiano, mas não houve conversa. Expliquei sobre o blog, sobre o primeiro post internacional. Mas nada, absolutamente nada, comoveu aquela criatura, que provavelmente jamais foi de um país a outro só para andar de bicicleta.

Bom, se não tinha bicicleta, pelo menos, vamos as sardinhas, certo? Caminhei durante duas horas em um puta sol, olhando para a ciclovia, para aqueles turistas felizes e amaldiçoando a todos. Que injustiça seria aquela que só me restavam as sardinhas? Caminhei, comi as tais sardinhas que eram bem mais “salivativas” nos meus pensamentos e fui até o último posto, onde talvez existissem algumas bicas para emprestar.  Chegando no último posto, com os dedos dos pés e das mãos cruzados, novamente, nada de bicas. Voltei a caminhar rumo à estação de trem, dessa vez para a volta, chutando as pedrinhas do caminho. Inconsolável.

Na orla, porque acho que alguém teve dó de mim, avisto um loiro desses de cinema, olhando para o nada e me sorrindo convidativo. Eu, fingindo que não havia percebido aquele sujeito alto, loiro e forte, pedi para que ele tirasse uma foto minha e ele naturalmente o fez, além de puxar a conversa. Tratava-se de um sueco, chamado Peter, que trabalhava como consultor em uma empresa de petróleo. Passava alguns meses em diversas plataformas pelo mundo e seu lugar favorito o qual ele estava trabalhando no momento, era Cascais. Conversamos mais um pouco e eu, naturalmente, expus o meu drama ao sueco que sem titubear me disse que emprestaria sua bicicleta, se ela não estivesse quebrada. Achei que era alguma maldição.

Me despedi do sueco, continuei meu caminho ao lado da ciclovia, chutando pedrinhas, inconsolável. As 15 bicicletas permaneceram lá o dia todo e a brasileira irritante também. Olhei-as por mais algum tempo antes de partir, com a mesma irresignação que um cão vadio olha os frangos girando na grelha da padaria.

Peguei o trem de volta a Lisboa, quando o sol já ia se pondo. Voltei comigo pedalando sobre meus trilhos imaginários.

De bicicleta na Ciclovia da Marginal Pinheiros

A impressão de quem chega é que você está entrando em uma espécie de quartel general para bicicletas: um portão de grades metálicas e uma guarita controlam o acesso. Aceno para o funcionário que me olha de dentro do vidro e ele permite minha entrada para a as escadas.

Depois de encaixar os pneus em uma estreita canaleta de auxílio, escalo com a bike todos os degraus e ao final deles uma boa surpresa: a Marginal Pinheiros do alto! Quem não é acostumado com sua vista panorâmica, pode se encantar com o incontável número de carros que passam com velocidade e se perdem na extensão da pista, limitada num horizonte de viadutos. Olhando de cima, os carros, as pistas largas e o rio sufocado na poluição, enchem o espírito cosmopolita de qualquer ciclista de asfalto.

Ao final da passarela, antes de chegar finalmente à ciclovia, fico um pouco receosa: o passeio não cheira nada bem! E, ao julgar pela razão das narinas, a ciclovia da Marginal Pinheiros parece, num primeiro momento, um mico.

Mas tão logo desço as escadas da passarela, logo no ponto de partida (infelizmente a ciclovia conta apenas com 2 pontos de acesso) vejo vários capacetes, coloridos, ávidos por espaços quase sempre disputados com os carros nas vias regulares. Quem já sentiu o chiado do freio do ônibus ou uma buzinada de um taxista impaciente pressionando o seu pedal, certamente vai sorrir. Enfim vias livres!

Com o tempo bom ou sem chuvas na semana, depois de alguns giros, o odor desagradável vai diminuindo ao longo do caminho. Em alguns locais esse cenário pode mudar, mas de modo geral os 14 quilômetros da ciclovia te aguardam com bons ares.

O percurso conta com pontos de apoio para ciclistas com bancos para descanso, válvulas de encher pneus, bebedouros e até sprays, que são bem úteis nos dias de calor.

O trem que acompanha a paisagem não impede de perceber que São Paulo muda de cores e formas: quanto mais longe se alcança, mais baixos ficam os prédios, menos urbanizada é a paisagem.

Quem não usa bermuda acolchoada, não tem selim confortável ou suspensão na bike, pode se descontentar com as lombadas. Aliás, não encontramos razões óbvias até a conclusão deste post para a ciclovia contar com lombadas!

Além das lombadas, placas indicando a existência de capivaras (das quais encontramos somente rastros de cocô na pista) e placas solicitando a redução de velocidade nos dias de chuva, fazem parte do contexto curioso da ciclovia.

Os olhos podem se perder em linha reta. Um som no ouvido, a perna solta para girar e girar e girar. Talvez algo parecido com paz e algum mau cheiro. Famílias, speedys velozes, pessoas de todas as idades. Eu respiro fundo até onde o ar impuro me deixa : ai se toda a cidade pudesse ser assim…

Ciclovia Marginal Pinheiros

Horário de funcionamento – Diariamente das 6:00 5:30 às 18:00 18:30 horas.

A entrada pode ser feita pela estação Vila Olímpia da CPTM ou nas proximidades da estação Jurubatuba (Zona Sul) e também na Av. Miguel Yunes, na estação Santo Amaro e na Ponte Cidade Universitária. Fonte: CPTM (Atualização em 23 de Abril de 2013).

De bicicleta, à Fantasia

Bicicletada à Fantasia – Março de 2011.

De bicicleta pelo começo

Nasci em uma cidade de casas. Casas pequenas, simples, que se alternavam em cores e formas quando vistas pela janela do banco de trás do carro da minha mãe. Eram casas pequenas, que se tornavam quase imperceptíveis se estávamos atrasados. Os carros, no entanto, eram grandes. Ainda mais quando vistos da perspectiva de uma pequena passageira: painel, direção, câmbio, bancos, espelhos. Eram tão grandes que determinavam a hierarquia do poder entre eu e meus irmãos, por isso eram constantes as disputas para ver quem iria no banco da frente ou ainda, quem seria capaz de manipular a direção do carro desligado, quando brincávamos de motorista. Os carros, como em toda família de classe média daquela época, eram símbolo de ascensão econômica. Por isso foram todos comemorados, diante da nossa condição de sobreviventes à inflação, recessões, planos econômicos e crises. Do primeiro Fusca, da Parati histórica até o primeiro carro com direção hidráulica, lembro-me de ter sido muito feliz. Essa felicidade movida em motores à explosão.

Cresci numa cidade de prédios. Prédios grandes, às vezes suntuosos e geralmente altos. Altos a ponto de ultrapassarem a visão limitada da janela do ônibus. Altos que chegam às vezes a tampar o sol. Mas isso era assim quando cheguei por aqui, há mais ou menos dez anos.

Hoje moro em uma cidade de carros. Carros que se acumulam cada vez mais em vias estreitas. Carros que buzinam em uma orquestra agonizante a música da impaciência. Impaciência que não é só minha, mas de boa parte dos motoristas ao lado. Alguns suspiros, espreguiçadas, cigarros sorvidos, celulares consumidos e motos, milhares de motos, lançando um agudo, estridente, no meio da via, capaz de irritar o mais calmo dos seres humanos.

Quando cheguei por aqui me encantei com os prédios, como todo estrangeiro se encanta com a paisagem alheia. Mas me desencantei, em proporções de um divórcio, quando o trânsito efetivamente começou a tornar os minutos do meu relógio mais curtos. Foi assim que eu comecei a odiar São Paulo.

Mas não me divorciei e na vida real também não casei. Como toda história óbvia, acabei comprando uma bicicleta: desmontável e absolutamente linda.

Começamos em trajetos tímidos, pelas vias sossegadas do bairro, que restavam aos finais de semana. Aos poucos a bike ganhou luzinhas, revestimentos para os pneus e amigos. Amigos outros que fizeram os trajetos curtos se tornarem mais longos e mais bonitos.

Um dia, depois do que já nos conhecíamos e que já havia lhe apresentado minha paixão em duas rodas, ele surgiu com um cabelo e uma barba enormes e uma speedy velha, quase enferrujada, que havia trazido do sítio do avô. Uma Caloi 10 pela qual ele se orgulhou muito e se tornou minha maior e mais apreciável parceria. Depois da amizade e da Caloi veio a máquina fotográfica e depois a minha vontade de escrever e tudo isso virou esse blog, de bicicleta.

De bicicleta vamos entendendo mais sobre as nossas distâncias. As nossas e as do mundo. Eu sigo escrevendo e o Renê segue fotografando. Com nossas duas magrelas e outras que se juntam a nós, nos permitimos experimentar São Paulo com outros cheiros, outras cores e outros sons. Colocamos a nossa irritação habitual do trânsito nos pedais e estamos por aí, registrando tudo.

Hoje vivemos numa cidade de bicicleta. Esse blog é sobre isso.