De bicicleta, gerando negócios


No último dia 24 de Novembro, o Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da FGV/EAESP realizou a mesa redonda Empreendedorismo e Bicicleta, na abertura da Semana Global do Empreendedorismo.

O objetivo do evento foi mostrar como uma mudança de paradigma na mobilidade urbana pode fomentar a criação de novos negócios e a geração de emprego e renda, com a ampliação do uso da bicicleta. Alguns dados recentes mostram que, por exemplo, na Espanha, a bicicleta movimenta 1 bilhão de Euros por ano. No Reino Unido, a London School of Economics fala que este número é algo em torno de 3 bilhões de Libras. Um grupo de pesquisadores da Nova Zelândia, em seus estudos, confirmou que, com cada dólar investido em ciclovias segregadas, a cidade economiza pelo menos 24 dólares, reduzindo os custos com a saúde,  poluição e o trânsito.

O Brasil não tem ainda números exatos mas, segundo dados do MDIC, a importação de bicicletas no Brasil cresceu mais de 200% nos últimos 5 anos.

O Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da FGV, que completa anos 10 anos de atividades em 2014, sempre se pautou por olhar a atividade empreendedora em quatro vertentes: empreendedorismo que cria um novo negócio (startups), o empreendedorismo social, o intra-empreendedorismo, ou seja, o empreendedorismo dentro das organizações e o empreendedorismo no setor público. A mesa redonda foi uma oportunidade de conhecer como cada vertente pode se relacionar à bicicleta. Entre os debatedores estavam:

  • Talita Noguchi, sócia-proprietária do bar e bicicletaria “Las Magrelas” e uma das organizadoras do festival feminista Desamélia. Ela contou como foi o processo da criação do negócio, a identificação da oportunidade e contou como foi o financiamento para a abertura da empresa, que contou com o apoio de uma rede informal de investidores;
  • Renata Falzoni, criadora do site Bike é Legal. Ela falou sobre o ciclistas como consumidor e contou um pouco do cicloturismo na Europa e como isso ajudou no resgate de regiões rurais abandonadas e;
  • Thiago Benicchio, envolvido na criação da ONG Ciclocidade e consultor do ITDP Brasil (Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento). Ele evidenciou como o empreendedorismo também é importante no 3o setor e o relatou o processo que leva do ativismo, na Bicicletada, à criação de uma ONG.

A abertura do evento foi feita pelo Secretário Municipal de Transportes de São Paulo, Jilmar Tatto, que apresentou como estão sendo construídas as ciclovias na cidade, quais empreendimentos podem surgir e da necessidade do comerciante em mudar sua mentalidade e visualizar o ciclista como consumidor e aliado. O vídeo acima, com produção de Silvia e Nina, apresenta fala do Secretário.

PS.: A GloboNews recentemente também fez uma reportagem sobre o assunto, que pode ser vista em http://globotv.globo.com/globo-news/mundo-sa/.

@renejrfernandes

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De Bicicleta, pelo Centro

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Post convidado de Mariana Mazzini Marcondes

Antes tarde do que nunca fui estrear minha nova bike nas “ciclovias do Haddad”, no centro. É destas coisas que se tem que fazer. Depois da primeira volta você já vai querer usar bicicleta até para pegar um copo d’água na cozinha.
A começar pelo cenário. Quem desenhou o itinerário das ciclovias do centro não devia ser engenheiro de tráfego, mas artista. Para quem, como eu, vive, ama e respira o centro (a ponto de irritar os amigos de outras vizinhanças) prepare o lencinho e o coração. É simplesmente a forma mais bonita de passear pelas redondezas. Para quem não conhece muito bem o centro, vale a pena tirar um dia inteiro para pegar uma bike e seguir a estrada de tijolos vermelhos. Ela te levará para a Sé, São Francisco, Viaduto do Chá, Vale do Anhangabaú, São Luís, República, Arouche, Luz…

A estrada de tijolos vermelhos, contudo, ainda tem alguns problemas. A sinalização é o maior deles. O Código de Trânsito te diz que você é um veículo, teu instinto de sobrevivência, que você está melhor com os pedestres… O trecho de entrada na São João, saindo da República, é com emoção, assim como alguns trechos da Luz. Se bem que é também uma das partes mais bacanas. Eu nunca tinha chegado de forma tão triunfal na Sala São Paulo. Mas, lembre-se, é um projeto inovador e em construção! Tem também um lance de se sentir um pouco dentro de um vídeo game. Você tem alguns inimigos na sua aventura sobre duas rodas. E os carros, claro, são os piores deles (se bem que os ônibus não ficam atrás). É aquela coisa. Você já sabia que eles eram malvados. Mas você também sabia que a Bellatrix era uma comensal da morte, mas quando ela lança o Avada Kedavra sobre o Sirius Black (SEU personagem favorito) você entende o que é o ódio. É um pouco esta a sensação que você tem quando escuta de um carro “está achando que só tem bicicleta na cidade agora”. Aconselho respirar fundo. Seria como a primeira colocada no concurso de miss se pegar pelos cabelos com a terceira. Dê um tchauzinho simpático. Eles já perderam.

Os pedestres não são das criaturinhas mais fáceis também. Eles andam na ciclovia, fingem que não estão vendo sua bicicleta e se comportam como suicidas bêbados. Mas, nesse caso, vale a pena ver o lado deles. Antes das ciclovias chegarem, o mundo do centro se dividia entre veículos e pedestres. Agora, existe você, com sua bicicleta. Ao fim, eles são potenciais aliados. Então seja gentil e amável. Estamos em uma batalha pelo espaço público mais humano. E pedestres são amigos. Mesmo quando eles andam com carrinho de bebê ocupando as duas faixas. Na verdade, a definição do que é ou não bicicleta é bastante relativa. Carrinho de bebê, carregamento, carroceiro, skate, carrinho de rolimã… Tem roda, está na ciclovia. O que significa o dobro de atenção. E de gentileza. E de paciência. E de “mais amor, por favor”. Mas, depois de quase 2 horas perambulando pelo centro com a minha nova companheira, descobri uma coisa incrível: os ciclistas. Sempre que passa uma bicicleta rola toda uma empatia, uma faz festinha para a outra. Claro, você agora pertence a essa sociedade secreta que tem feito a cidade muito mais colorida e divertida!

De bicicleta, algumas pessoas tentam mudar a cidade

Estreou ontem, dia 03 de Maio, o documentário Pedais Pensantes, dirigido por Marcelo Zerwes e com produção executiva de Cauê Ueda. O vídeo mostra algumas pessoas e suas atitudes que tentam mudar a cidade de São Paulo, buscando ambiente mais “humanizado” por meio do uso da bicicleta, sem necessariamente se chamarem de cicloativistas.

O documentário conta com depoimentos de Renata Falzoni, arquiteta, jornalista, bike e video repórter, que pedala desde 1976 como meio de transporte e fundadora do Night Bikers, em 1989, de Arturo Alcorta, bike repórter e fundador da Escola de Bicicleta, Teresa D’Aprile, fundadora do grupo Saia Na Noite, em 1992, André Pasqualini, um dos criadores do Instituto CicloBR e autor do blog Bicicreteiro, Marcelo Siqueira, artista plástico, ex-bike repórter e Thiago Benicchio, jornalista e pesquisador de mobilidade urbana, co-autor do vídeo Sociedade do Automóvel, autor do blog Apocalipse Motorizado e um dos fundadores e primeiro diretor geral da Ciclocidade.

Melhor que qualquer explicação é assistir ao documentário e sair pedalar. Só assim para perceber como a cidade precisa de mais atitudes que provoquem mudanças na mobilidade urbana que coloquem o cidadão como ponto central, em detrimento da máquina.

“Pedais Pensantes” from Tamago on Vimeo.

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De bicicleta, para a praia

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Rod. Gov. Mario Covas / BR 101 / SP-055.

Andar por aí de bicicleta é uma delícia. Desde a volta épica de 200 e tantos quilômetros com o Igor Gabia, os vários Audax, as descidas da estrada de manutenção da Imigrantes, até descida pelos “proibídos” túneis da própria Imigrantes, a sensação de pegar uma estrada e chegar a qualquer lugar com a força das suas próprias pernas e gastando muito pouco é fantástica.

Confesso, contudo, que não fiz muito disto nos últimos temos. Com o aumento do número de bicicletas nas ruas e estradas elas passam a ser mais visadas, crescendo o número de furtos e roubos. Uma das rotas mais gostosas, que é o caminho para a praia pela Imigrantes, se tornou proibitiva. Relatos de grupos armados roubando ciclistas têm sido constantes. Recentemente o viajante Mate Trotamundo e sua companheira foram roubados na descida da serra de Santos, na altura da ponte estaiada e perderam bicicletas, materiais de campismo e outros equipamentos. Estes fatos e tentativa de roubo e morte do Igor me deixaram um pouco assustado mas, parafraseando o Pessoa, viajar é preciso e viver não é preciso. Nem sempre dá para ficar pensando nas consequências.

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Praia de Juquehy.

Sem planejar nada, no último final de semana antes do carnaval aproveitei o convite de um amigo para passar a semana na praia e decidi descer pela Mogi-Bertioga. Esta estrada parece ser mais segura, já que o fluxo de bicicletas ainda não é tão grande.

Saí de casa na manhã do Domingo, por volta das 6h30m. O plano era ir de Metrô até a estação da Luz, no centro de São Paulo, e de lá de trem até Mogi das Cruzes, cidade onde a estrada de descida começa. Não dei tanta sorte e o serviço estava interrompido. Fui até a estação Calmon Viana, na cidade de Poá, parte da Grande São Paulo. Com isso teria que pedalar 15 KMs a mais. Nada de mais. É uma reta só até Mogi e de lá a descida da serra. Ou quase. Estes 15 KMs são em

Altimetria.

Altimetria.

grande parte de paralelepípedos (e eu sempre de bicicleta de estrada, sem suspensão). Depois disto, os primeiros 20 KMs da Mogi-Bertioga são cheios de subidas e descidas, até que chegam os 20 KMs de pura descida e por fim uma reta que leva à Rod. Gov. Mario Covas, a BR 101 ou SP-055.

A descida é linda. Acima dos 55 KM/h o tempo todo. A bicicleta vira um avião. E de vez em quando a gente encontra motoristas sensacionais. Como não tem acostamento, desci todo o trajeto pela pista. O condutor do carro que estava atrás de mim manteve distância e não forçou a ultrapassagem em nenhum momento. No plano, ele acenou e eu sorri de volta na expectativa de que ele pudesse entender que aquela atitude dele tinha sido muito importante.

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Praia de Juquehy.

Chegar no nível do mar não é tanto um alívio assim. Ainda tem umas subidas e descidas, mas o acostamento na SP-055 é maior e cheio de ciclistas. Dá para ver a praia, as pessoas e seguir tranquilo.

Estava indo até Juquehy. 88  KMs na idéia inicial. Quase 105 KMs com a falta do trem até Mogi. Cheguei às 13h. Amigos na praia, cerveja gelada e a sensação incrível de ter voltado a pedalar na estrada, de ter chagado lá por R$ 3,00 e em muito menos tempo que os viajantes de Reveillon.

Barra do Una.

Barra do Una.

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De bicicleta, eu vejo os muros coloridos

Um muro é uma estrutura que define uma área  […] ou fornece abrigo e segurança (Fonte: Wikipedia).

De bicicleta, eu vejo o lado de fora dos muros. Às vezes acho isso um grande privilégio.

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Mário Lago, por Kobra.

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Vila Madalena, pelo coletivo DaVila.

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De bicicleta, pela Castello Branco, ganhei o Igor

Rodovia Castello Branco. Outubro de 2011.

Rodovia Castello Branco. Outubro de 2011. Foto: Gilberto Kyono.

Eu conheci o Igor Gabia quando ele tinha ainda 16, quase 17 anos. Isso foi há cerca de 2 anos. Um pouco depois disso, em um dia qualquer de Outubro de 2011, o Gilberto Kyono me chamou para fazer um circuito de um dia, saindo de São Paulo pela Rodovia Castello Branco, em direção a Itu, de lá em direção à Rodovia dos Bandeirantes e por ela de volta a São Paulo, o que daria mais de 200 KMs.

Estávamos eu, o Gilberto, o Igor, a Natashe e mais dois conhecidos do Gilberto. Saímos de São Paulo às 7 horas da manhã, com a previsão de voltarmos até a noite.  Seguimos pela Vila Leopoldina, até a ponte mais próxima à entrada da Castello, para evitarmos qualquer trecho da Marginal Tietê e já começarmos onde o acostamento é mais largo. Tudo foi tranquilo na saída de São Paulo, apesar das entradas e saídas de veículos.

Com paradas para descansar e tomar água, fomos seguindo e vencendo a distância, até o KM 53. A câmara de ar do pneu do Igor furou e lá fui eu ajudar. Isso se tornaria a principal “marca” da minha amizade com ele. Neste dia até que não foram muitos furos, mas em um Audax, meses mais tarde, eu o ajudaria a trocar câmaras 5 vezes em pouco quilômetros, até que pedimos um pneu emprestado para o Richard Dunner, da organização da prova. Descobrimos então que era o próprio pneu que estava furando câmara, mas com isso nós dois seguimos sem mais câmaras reserva até o final, pois já tinham ido as 3 dele e as 2 minhas.

Depois da troca do KM 53 continuamos, almoçamos e quando escurecia estávamos quase em Jundiaí. Os conhecidos do Gilberto sugeriram que tomássemos, daquele ponto, o trem de volta a São Paulo. Já tínhamos pedalado mais de 150 KMs. Eu falei que não queria parar e o Igor logo se voluntariou a continuar comigo. Seria a primeira vez que eu iria passar dos 200 KMs e não queria perder a chance. Chegamos quase às 10 horas da noite, depois de outros 60 KMs, cansados, mas como já tínhamos pedalado mais de 230, ele sugeriu complicar e fazer a subida até a Paulista pela Av. Pacaembu. Fizemos, e um menino que ainda estava o ensino médio tinha me acompanhado na distância mais longa da minha vida pedalando.

Essa é só uma das lembranças boas. Tem muito mais. Tem muitos outros furos em que ele me ajudou. Tem muito tempo andando juntos nos Audax. Tem as vezes no final de tarde que eu estava voltando do trabalho e ele aparecia, do nada, pedalando ao meu lado na Paulista. E parece que esse menino é uma unanimidade. Uns tantos outros textos nas redes sociais, um post do Odir Züge e outro da Michele Mamede mostram um companheiro, de sorriso fácil e brincalhão, que todo mundo gostava.

No quilômetro 16 da mesma Castello Branco que pedalamos, o Igor foi embora. Sábado, 24 de Agosto de 2013, aos 18 anos, ele foi atropelado por um caminhão, ao cair na pista tentando fugir de dois assaltantes. Vou sentir saudades deste menino, não com a sensação de tê-lo perdido, mas de ter ganhado algum tempo ao seu lado.

Audax Holambra. Foto: Alexandre Tamashiro (China).

Audax Holambra. Foto: Alexandre Tamashiro (China).

Sem bicicleta, na Europa

Estou morando em Portugal desde Fevereiro. De lá para cá usei poucas vezes uma bicicleta. Já são mais de 5 meses de abstinência. Ao longo deste período tive a oportunidade de visitar algumas cidades em Portugal, na Espanha, na Itália, na Alemanha e na Inglaterra. É impossível nomear todas as cidades em Portugal, mas na Itália foram Milão, Veneza e Roma, na Espanha foram Madri, Sevilha, Málaga e Santiago de Compostela, Berlim na Alemanha e Londres, na Inglaterra, uma velha conhecida minha.

Bicicletas próximas ao Duomo, em Milão.

Bicicletas próximas ao Duomo, em Milão.

De todas estas cidades, sem dúvida Berlim e Milão são as mais amigáveis para o ciclista. Grande parte do centro das duas cidades é cortado por ciclovias e, quando elas não estão presentes, o motorista respeita a bicicleta. Ela é realmente vista como uma alternativa de transporte. Em Berlim todos os hotéis possuem algumas para alugar (e não é caro!) e quase sempre é possível encontrar um paraciclo. Berlim foi o único lugar que realmente pedalei, pois era mais eficiente que andar ou usar transporte público.

Travessia em Sevilha.

Travessia em Sevilha.

Em todas as cidades da Espanha há muitos ciclistas. Eu nunca pedalei, mas a impressão que tive é que é seguro, principalmente em Sevilha, onde há bastantes ciclovias e em Santiago de Compostela, lugar onde grande parte dos peregrinos chegam depois de terem percorrido centenas de quilômetros.

Em Londres e Roma há também muita gente pedalando, apesar de serem capitais “agitadas”. Londres tem um clima desfavorável, mas mesmo assim muita gente vai ao trabalho de bicicleta. É fácil notar um grande fluxo em direção ao centro de manhã e deixando a “City” à tarde. Em Roma o motorista parece menos cuidadoso e não há tantas lugares específicos para bicicleta nas ruas. Apesar de ter visto esta ghost-bike, também não me pareceu um lugar para ter medo. É só preciso cuidado com as motos e com o piso.

Ghost-bike, em Roma, próxima ao Coliseu.

Ghost-bike, em Roma, próxima ao Coliseu.

Obviamente em Veneza eu não vi uma única bicicleta. Ou teriam que ser bicicletas anfíbias (um “pedalinho”, talvez!?), ou que subam degraus para atravessarem as infinitas pontes.

Veneza - Itália.

Veneza – Itália.

@renejrfernandes